Por uma resistência anticapitalista na Amazônia

(…) no Brasil, o governo ditatorial militar, em seu projeto de desenvolvimento nacional, fez grandes investimentos na região Amazônica, acelerando o processo de destruição da floresta. A expansão da fronteira agrícola ocasionou uma série de conflitos no norte do país, envolvendo os recém-chegados “sulistas” e as chamadas populações tradicionais, que em muitos casos se organizaram para resistir ao processo de expulsão dos territórios que ocupavam. No estado do Acre, o movimento dos trabalhadores extrativistas (seringueiros), que tinha Chico Mendes como uma de suas principais lideranças, apresentou uma inovadora proposta de reforma agrária para a Amazônia (a das Reservas Extrativistas), que incluía a preservação da floresta entre seus objetivos.

Nessa luta, alguns ambientalistas identificaram a oportunidade para ampliar a repercussão da crítica ao desmatamento das florestas tropicais que, desde o início da década de 1980, já estava sendo tratado pelo governo norte-americano como “o mais sério problema ambiental” que o mundo viria a enfrentar nas décadas seguintes. Problema que era apresentado como decorrência, em grande parte, da pobreza e do crescimento populacional (pretensamente responsável pelo aumento da demanda por recursos naturais), nunca como efeito das forças destrutivas do capital. É assim que a imagem de Chico Mendes passa a ser vinculada a um projeto bastante diferente daquele pelo qual tantos lutadores, ele inclusive, perderam a vida.

Esse processo de transfiguração, que buscou apresentá-lo como o “Ghandi da Amazônia”, foi bastante exitoso depois de sua morte.
A caída de Chico e a ascensão do “socioambientalismo” – que alega associar a luta pela preservação da floresta com aquela voltada à melhoria das condições de vida de seus habitantes – ocorre no mesmo período histórico em que a queda do muro de Berlim é apresentada ao mundo como a imagem da derrota definitiva do socialismo. A ideologia do fim das ideologias e da inexistência de alternativas para além do capital foi, assim, o marco dentro do qual passou a crescer esse “novo ambientalismo”, que estampa a figura de um Chico Mendes pasteurizado em seus materiais de propaganda, enquanto promove uma “readequação” de seu legado político às estreitas “possibilidades” de atuação – “pragmaticamente” identificadas – do início da década de 1990.

(…) pretendemos mostrar que as estratégias de desenvolvimento defendidas por Marina e seu cordão de ONGs é apenas mais uma face do capital, tão destrutiva quanto as demais. Complementa a velha política de desenvolvimento a todo custo levada adiante pelos governos Lula e Dilma, exemplificada no projeto IIRSA (Iniciativa para a Integração das Infraestruturas Regionais Sul-Americanas), com financiamento do BNDES, que vem produzindo enormes impactos na Amazônia sul-americana. Ou seja, hidrelétricas, rodovias, empreendimentos de mineração, exploração de gás e petróleo e expansão da fronteira agrícola não são as únicas expressões do desenvolvimento capitalista na região. O manejo florestal, que é um eufemismo para a exploração madeireira e nada tem de sustentável, seja em sua forma industrial ou pseudo-comunitária, assim como a comercialização de serviços naturais, a mercantilização completa da natureza e da vida, não são verdadeiras alternativas para as populações da Amazônia. Tampouco para a humanidade. Se a crise ambiental é um fato, se nossa sobrevivência corre perigo, a solução para esse problema não será encontrada no mercado.

(…) Hoje, a luta pela preservação da Amazônia deve ser feita ao lado dos trabalhadores de Santo Antônio e Jirau, em Rondônia, e de Belo Monte, no Pará; dos indígenas que lutam pela demarcação de seus territórios; dos extrativistas e pequenos agricultores que resistem à expulsão de suas terras, porque todos estes estão enfrentando, embora de maneiras distintas, os efeitos da expansão do capital sobre a região. Essa é, contudo, apenas uma estratégia de resistência. Para que a floresta não seja destruída, para que a crise ecológica seja enfrentada, precisamos dar outro passo, revolucionário, em direção a outras formas de organização social, o que deve abarcar todo o planeta. Vinte anos depois da Rio 92, é hora de expormos o fracasso das tentativas de reformar o sistema e sepultarmos a ideologia da inexistência de alternativas ao capital.

O texto completo está no blog do Centro de Memória das Lutas e Movimentos Sociais da Amazônia: http://lutasemovimentosamazonia.wordpress.com

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